Memória da Escola

Brito Camacho

 

Esta Memória da Escola reproduz o folheto de Fevereiro de 2003, 

editado no âmbito das comemorações dos 150 anos do Liceu de Beja

(1852-2002)

 

Pesquisa e texto de Francisco Rosa Dias

Brito Camacho e o Liceu de Beja no Último Quartel do séc. XIX

Manuel de Brito Camacho nasceu no Monte das Mesas, arredores da aldeia de Rio de Moinhos, a alguns quilómetros da vila de Aljustrel, em 1862, e faleceu em 1934.

Brito Camacho (1862 - 1934)

Tendo abraçado, desde muito novo, a ideologia republicana participou, intensamente, na Propaganda contra a Monarquia.

Implantada a República, foi ministro do Fomento e dirigente do Partido Unionista, de que fora fundador.

Em 1920-22 desempenhou o cargo de Alto Comissário da República em Moçambique.

Político importante da l República, distinguiu-se, também, como jornalista. tendo fundado o jornal A Luta (1906), de que foi director.

Das muitas páginas que escreveu - foi autor de mais de trinta volumes - têm particular interesse as narrativas, os tipos, os quadros descritivos do seu Monte natal das Mesas, da aldeia de Rio de Moinhos, e também de Montes Velhos e Jungeiros, da Vila de Aljustrel e, mais geralmente, do Baixo Alentejo rural.

Dessa ruralidade dão conta, aliás, os nomes de algumas das suas obras, como os Quadros Alentejanos (QA), Gente Rústica (GR), Por Cerros e Vales (CV)...

É tão forte a presença do campo nos seus escritos, que Aquilino Ribeiro, ao estudo que fez da vida e obra de Brito Camacho, deu o título sugestivo de Brito Camacho nas Letras e no Seu Monte.

No entanto, a sua inclusão nesta Memória da Escola não se deve, particularmente, à sua qualidade de figura grada da I República, nem à sua faceta de jornalista influente, nem tão pouco à sua qualidade de médico, que também foi.

Interessa-nos, sim, a sua condição de estudante do Liceu de Beja, no século XIX, as descrições que do ambiente estudantil fez e do quadro que traçou da educação no Alentejo no último quartel do século.

No Liceu, em Beja

Feita a instrução primária, com mestres em casa, no Monte, a que se seguiu a frequência da escola de Rio de Moinhos e posteriormente a de Aljustrel, armado de alguma sabedoria "já sabendo um bocadinho de gramática, arranhando menos mal o francês, lendo com desembaraço os jornais e nas contas dando sota e ás ao mais pintado" (QA), o estudante está pronto para nova etapa, mais difícil – o Liceu de Beja.

Recordando a ida para Beja, escrevia Brito Camacho muitos anos depois:

"Um dia meu pai, homem de letras gordas, rompeu no excesso de pregar comigo em Beja para estudar, para ser gente (...). Minha mãe, coitada, menos atenta que meu pai aos benefícios da instrução, o que não queria era que me separassem dela, levando-me para Beja
lá nos confins do mundo, a mais de uma hora de caminho
(...)"
.

"Assentou-se em que eu iria para Beja alguns dias antes de abrirem as aulas, e na antiguidade a que me estou reportando, o ano escolar dos liceus principiava, invariavelmente, em cinco de Outubro. Não houve parente, amigo ou conhecido na freguesia de quem eu não fosse despedir-me, recomendando-me minha mãe que dissesse, feitos os cumprimentos: - venho perguntar se querem alguma cousa para Beja, e lá têm um creadinho às suas ordens. Que bom tempo! "

Gente Rústica (GR)

Este pequeno excerto dá bem conta de realidades curiosas:

  • desde logo a distância a que Beja aparecia para quem vinha de Aljustrel;

  •  depois a posição da mãe (das mães?) face ao afastamento do filho para terras longínquas e necessariamente para um mundo novo;

  • as boas regras de educação também lá estão com os termos da despedida - "o creadinho às ordens".

O próprio Brito Camacho tem consciência das mudanças do tempo à altura em que escreveu estas suas memórias.

A 5 de Outubro, data de início das aulas nos Liceus, e que se manteve até há bem pouco tempo, temos o nosso estudante em Beja.

Do ambiente estudantil deixou-nos algumas impressões:

" No tempo em que nós, eu e o Baptista, éramos estudantes do Liceu, em Beja, havia uma grande má vontade dos futricas para com os corvos e dos corvos para com os futricas. - Corvos chamavam os futricas aos estudantes, por causa da vestimenta negra - capa, batina e gorro. 

Era rara a noite em que entre estes guelfos e gibelinos não havia cenas de pancada, não entrando em exercício mais do que o pé e o punho, quando chegavam às mãos. Às vezes o duelo era à pedrada, raramente aparecendo a bengala, manejada por algum diabo mais esturrado, futrica ou estudante. O Campo de Oliva, por trás do Quartel de Infantaria 17 foi teatro de muitas dessas pelejas, de que os contendores saíam com mais galos que ferimentos."

De Bom Humor (BH)

Eis aqui outro manancial de informações sobre o ambiente estudantil em Beja, no último quartel do século XlX.

Assinale-se o traje do estudante, de cor negra - a capa, a batina e o gorro – que conduziu ao nome de corvos. Essa designação caiu há muito em desuso embora tenha deixado rasto. Em Évora, o jornal escolar do antigo Liceu tinha (e julgo que tem ainda) o nome de "O Corvo".

O privilégio de envergarem capa e batina fora, aliás, concedido aos estudantes de Beja pelo Rei, por volta de 1870, quando o Liceu se instalou na Casa da Porta de Ferro.

Quando chegou a Beja, o jovem Brito Camacho não tinha ainda a indumentária académica - capa, batina e gorro - "mas o Reitor era muito bom homem e o primo Camacho faria com que ele lhe permitisse frequentar as aulas, por alguns dias, à futrica" (Gente Vária).

O uso de capa e batina, no Liceu, era ainda relativamente frequente nos anos sessenta, mas foi perdendo actualidade.

Do que não há rasto, é da rivalidade entre estudantes e não estudantes que, segundo Brito Camacho, seria corrente no seu tempo de aluno.

O Baptista, a quem Brito Camacho se refere, seu companheiro de boémia e sempre pronto para uma boa luta, será mais tarde o Coronel António Maria Baptista, Ministro do Interior e Chefe do Governo de 8 de Março de 1920, a 6 de Junho do mesmo ano. 

Curiosa é também a referência à bengala, cujo uso seria corrente. Bengala e chapéu, mesmo para os jovens, era parte da indumentária.

No seu 1º ano de Liceu, o jovem estudante, e é ele próprio quem o afirma, com receio de chumbar, terá estudado afincadamente, apoiado, também, numa promessa feita a Nossa Senhora do Castelo, de Aljustrel, sua Madrinha. Do empenho do estudante e da protecção da Santa resultou a sua passagem em todos os exames.

No segundo ano, o mesmo receio, igual estudo e renovação da promessa à Santa. Idênticos resultados nos exames

No terceiro ano...

No terceiro ano, tinha o rapaz no mínimo dezasseis anos, apareceu em Beja uma companhia espanhola de cómicos ambulantes, a Companhia Rosales, formada por um espanhol de má catadura, mas também por duas raparigas, "uma rechonchuda e bonita e outra um pouco mais velha, nem feia nem bonita" (BH).

"Tomei gosto pelo teatro; a estudar os papéis em vez das lições, cheguei ao fim do ano quasi in albis em todas as cadeiras" (BH).

Apesar de uma mais valiosa promessa à sua Madrinha, os resultados foram os esperados - chumbado em toda a linha!

 

Os Professores vistos por Brito Camacho

Da sua passagem pelo Liceu de Beja - que funcionava então na rua do Esquível, no "Portão de Ferro", deixou Brito Camacho algumas impressões sobre os seus Professores.

Essas impressões foram passadas à escrita longos anos depois da frequência do Liceu, que se verificou nos anos compreendidos entre 1876 e 1880.

Recordemos alguns desses Professores pela pena de Brito Camacho:

1. O Bacharel Mendes Lima, " O Charuto"

Brito Camacho descreve-o como "homem inteligente mas sem cultura, baixo e gordo, quase cilíndrico, muito dado às mundaneidades que comprometem a alma sobretudo quando se assentou na milícia da Igreja para o serviço divino" (BH).

O professor era padre, bacharel em teologia, tinha sido colocado no Seminário e dava aulas de filosofia no Liceu.

A alcunha de Charuto provinha do facto de andar sempre de charuto na boca, fumando de quinze a vinte por dia.

Sobre a sabedoria do Professor, é o antigo aluno muito crítico, pois afirma textualmente que "no princípio do ano , o Charuto era quem na aula sabia mais. No fim do ano era quem sabia menos, só o igualando em ignorância o mais estúpido dos seus discípulos" (GV).

As relações entre o aluno e o seu Professor de Filosofia eram, aliás, bastante tensas, pois ambos cortejavam a mesma rapariga da loja onde se abasteciam de tabaco.

Como o jovem levasse a melhor nos favores da moça, o Professor passou a detestá-lo "com todas as veras do seu coração de fauno besuntado de teologia" (BH).

Em resultado desta situação, o aluno teria sido obrigado a fazer exame como externo, exame em que foi aprovado. Aliás, parecia ter inclinação para a Filosofia pois, segundo afirma "os rapazes do Liceu de Beja chamavam-me filósofo" (BH).

O Liceu da Porta de Ferro que Brito Camacho frequentou no séc. XIX

2. O Sr. Gustavo

Retrato diverso, mais austero, é o do Sr. Gustavo, empregado dos Correios e que leccionava História e Geografia, ao tempo juntas numa mesma cadeira.

É breve a referência a este Professor, feita a propósito de uma situação cómica passada numa aula com o aluno Baptista, já nosso conhecido.

Escreve Brito Camacho "o sr. Gustavo não riu porque não costumava rir, e os condiscípulos não riram, porque o Baptista não era para brincadeiras" (BH).

3. O Dr. Rebello, "O Catimbau"

O Dr. Rebello, um barbaças de grande corpulência, originário da Beira, era o professor de Latim.

"Não era mau homem, o Catimbau, como lhe chamavam, e de Latim sabia mais que os rapazes, o que não acontecia noutras disciplinas, o Português, por exemplo. Para ele só havia complementos circunstanciais, e todos eles eram objectivos, porque nenhum havia sem objecto" (GV).

4. O Professor Macedo, "O Macedinho"

Descrito como "baixo e rechonchudo", o Dr. Joaquim Augusto de Sousa Macedo era professor de Francês e Teologia, funções que acumulava com as de capelão do Convento da Esperança.

Foi Reitor entre 1888 e 1896.

Brito Camacho evoca-o apenas como "O Macedinho", professor de Francês.

5. O Dr. Camacho

O Dr. Camacho, o primo Camacho, não foi professor no Liceu, mas apresentamo-lo aqui como mais um professor daquele tempo

O Dr. Camacho, por ser pessoa conceituada na cidade e aparentado à família, desempenhou, também, o papel de "encarregado de educação" do jovem que acabara de chegar do seu Monte das Mesas.

Era padre, professor no Seminário, onde regia Teologia Dogmática e, ao que se dizia ao tempo, segundo Brito Camacho, não havia em Portugal quem fosse capaz de se bater com ele em tal matéria.

Brito Camacho que aos dezasseis anos, andava então no Liceu, se afastou dos preceitos da Igreja de quem foi depois duro crítico, manteve sempre profundo respeito pela vida austera deste severo homem da Igreja, também capelão do Mosteiro da Conceição.

Reputando-o como homem sabedor dentro do campo limitado da sua disciplina, já "fora das Sagradas Teologias, a sua ilustração era excessivamente modesta. Não me recordo de ter visto na sua pequenina estante, além dos compêndios por que estudara, livros de história ou de literatura, de filosofia, ou ciência, qualquer coisa que fosse alimento do espírito, que correspondesse a uma curiosidade de sentir ou de saber, por fora do campo profissional" (GV).

Desta pequena amostra de Professores, e relembro que estamos na década de setenta do século XIX, podemos concluir:

  • os Professores do Liceu são ainda, em grande parte, homens ligados à Igreja;

  • é-lhes atribuída por Brito Camacho (a única fonte que estamos a seguir) ou pouca sabedoria ou baixo nível cultural;

  • era vulgar os Professores serem denominados por alcunhas.

 Esta tradição de pôr alcunhas aos Professores, ainda viva nos anos sessenta do século XX, tem vindo a desaparecer, quase não tendo expressão na Escola de hoje.

O nome de Brito Camacho, antigo aluno do Liceu de Beja, figura hoje como patrono de de uma das escolas da sua terra natal, Aljustrel.

Assinatura de Brito Camacho, aos 14 anos, no termo de matrícula, em 25-9-1876

 

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