Memória da Escola

Corino Andrade

 

Esta Memória da Escola reproduz o folheto de Janeiro de 2003, 

editado no âmbito das comemorações dos 150 anos do Liceu de Beja

(1852-2002)

 

Pesquisa e texto de Francisco Rosa Dias

Mário Corino Andrade e a doença dos pezinhos

O Dr. Corino Andrade, ilustre neurologista e investigador, antigo aluno do Liceu de Beja, identificou, caracterizou e definiu a Paramiloidose de tipo português – A Doença dos Pezinhos.

Mário Corino da Costa Andrade (1906-2005) - foto ao lado - nasceu em Moura, em 1906, filho de Francisco Xavier da Costa Andrade, de origem indiana, natural de Goa, e de Amélia Rita Alves, de Beja.

O pai era médico veterinário e a mãe doméstica.

Veio para Beja muito jovem – dava apenas os primeiros passos – e passou a residir com os pais na rua de Alcobaça, nº 17, junto ao Hospital Velho, onde viverá durante a infância e adolescência.

Faz o ensino primário no Colégio "Maria do Céu", que funcionava no Palácio dos Maldonados, à Rua do Esquível.

Em 1916/17 entra para o Liceu de Beja – então Liceu de Fialho de Almeida – instalado na Praça da República .

Entre os seus colegas e amigos de Liceu contavam-se o José Fernandes - o lavrador da Almocreva – "o amigo rico de Corino", como dizia a família; o Francisco Condeça – futuro médico; Mariano Feio – futuro professor e investigador; José Colaço, Sebastião Félix, Constâncio Lança, O Miquelina.

Em 1923/24, feita a sétima classe de ciências, entra em Medicina, que funcionava ao Campo de Santana. Entre os colegas de Curso, encontra-se, também, outro aluno de Beja, António Fernando Covas Lima.

Aos 23 anos, com média final de 16 valores, Corino Andrade termina o Curso de Medicina. Inicia a sua especialização em Neurologia e, entre 1929 e 1930, trabalha nos Hospitais de S. José e Santa Marta, em Lisboa.

Em 1931 vai para Estrasburgo trabalhar na Clínica Neurológica dos Hospitais Civis de Estrasburgo, uma das melhores clínicas da época, sob a direcção do Professor Barré.

Será nomeado chefe do Laboratório de Naturopatologia, onde trabalha intensamente, dissecando es-truturas anatómicas. Seis anos em Estrasburgo dão-lhe um património científico impar. Médico interno, vive e dorme num quarto do hospital onde trabalha. Desloca-se também a outros centros científicos, nomeadamente a Paris.

Em 1933 é-lhe atribuído pela Universidade de Estrasburgo o PRÉMIO DEJERINE, que honra o famoso casal de neurocientistas com esse nome. O neurologista português é o primeiro cientista não francês a receber este galardão que distingue investigadores das ciências neurológicas.

Em 1936, deslocou-se para a Alemanha, para Berlim, onde trabalhou com Oskar Vogt, famoso Professor de Neurologia e Neurocirurgia. Em Berlim assistirá aos Jogos Olímpicos desse ano, onde o atleta negro Jesse Owens foi a estrela, contrariando as teorias de Hitler.

De Berlim voltou ainda para Estrasburgo

Em 1938 regressa a Portugal e vem a Beja. O pai está gravemente doente e virá a falecer nesse ano, sendo sepultado nesta cidade.

Com dificuldades em arranjar colocação em Lisboa, Corino Andrade aceita o conselho do Dr. Egas Moniz para ir trabalhar para o Porto, onde as neurociências se encontravam praticamente vazias e sem estruturas.

O médico parte para o Porto. Para o Porto irá também a família- irmã e mãe - agora a seu cargo. Não voltarão a residir em Beja.

No Porto, a carreira de Corino Andrade começou de forma modesta. Por influência do Dr. António Luís Gomes – pai de Rui Luís Gomes, de quem Corino se tornará amigo – ao tempo Provedor da Misericórdia do Porto, entra para o Hospital Conde de Ferreira como "médico de serviço de enfermaria, provisório" ganhando 300 escudos. Pouca coisa, trabalho e dinheiro, para clínico tão preparado.

Em 1939 assinará contrato para médico neurologista do Hospital Geral de Santo António ( HGSA) " sem vencimento".

Apesar de inícios modestos, o neurologista, antigo aluno de Beja, irá desenvolver uma notável carreira de médico e investigador no norte do país.

Em 1939 começa a funcionar no HGSA o Serviço de Neurologia.

Corino Andrade, armado de fracos recurso tecnológicos – "um martelo de reflexos, o oftalmoscópio, o diapasão, um medidor de força das mãos, um compasso para avaliar a sensibilidade de alvos neurológicos, uma caixa-arquivo portátil, uma chave, um alfinete, um pedaço de algodão" – começa a análise de vários casos de doentes atacados pela "doença dos pezinhos", como era popularmente chamada.

Mas, e factor fundamental, o trabalho contou com a tenacidade e a argúcia do neurologista meticuloso, interrogativo, com o rigor científico e a investigação sistemática.

Dos vários casos analisados Corino Andrade começa a concluir não se poder aplicar-lhes os diagnósticos habituais: lepra nervosa, avitaminose, e seringo-mielia. Julga tratar-se de uma entidade patológica que não se encontra ainda descrita.

Ao verificar que a maioria dos casos provinha de região da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde vai ao encontro dessas famílias.

Verifica que o chamado " mal dos pezinhos" ataca núcleos familiares, sem relação consanguínea entre si, mas, no interior de cada família sim, a doença é hereditária, de transmissão genética, e é altamente mortal.

A investigação sistemática do Dr. Corino Andrade permite-lhe identificar, caracterizar e definir uma nova entidade clínica: a Polineuropatia Amiloidótica Familiar ou Paramiloidose de Corino Andrade ou Doença de Andrade ou Paramiloidose de tipo português.

A notícia corre nos meios hospitalares. Os mais incrédulos, que falavam de lepra nervosa, rendem-se à evidência.

Em 1952, a revista BRAIN publica o cé-lebre artigo A Peculiar Form of Pheripheral Neuropathy, de Corino Andrade, que irá internacionalizar o nome do neurologista português.

A Doença de Andrade tinha, segundo o seu próprio investigador, as seguintes características:

  1. "Paresias das extremidades, particularmente das inferiores.

  2. Diminuição precoce da sensibilidade à temperatura e à dor, começando e predominando nas extremidades inferiores.

  3. Perturbações gastrointestinais

  4. Perturbações sexuais e dos esfíncteres."

Em 1960 cria-se o Centro de Estudos de Paramiloidose que será dirigido pelo Dr. Corino Andrade até 1988, quando já tem 82 anos.

A investigação sobre a Polineuropatia Amidoilótica Familiar (PAF), como é actualmente conhecida, tem-se intensificado em países onde a doença prevalece, nomeadamente Japão, Suécia e Estados Unidos, além de Portugal, o maior foco de PAF no mundo.

Pensa-se, aliás, que Portugal foi um difusor da doença por meio dos Descobrimentos e da Emigração.

Com uma postura crítica face ao regime de Salazar, tendo aderido ao MUD (Movimento de Unidade Democrática), acabará por ser preso pela PIDE, acusado de actividades subversivas, em 1951. Será libertado sem julgamento.

Segundo João Honrado, militante do PCP e que viveu clandestinamente no Porto, durante algum tempo, "Corino Andrade ajudava-nos financeiramente e de forma directa tratou de vários camaradas doentes, que viviam na clandestinidade, em diferentes alturas, durante o fascismo" (João Honrado, Crónicas de Dizer Alentejo, Beja, Associação de Municípios do Distrito de Beja, 1998)

A actividade do Dr. Corino Andrade tem sido reconhecida oficialmente.

Em 1979, o Presidente Eanes condecora-o com o grau de Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada e o Presidente Soares, em 1990, atribui-lhe a Grã Cruz da Ordem de Mérito.

Em 13/5/1999, em sessão solene nos Paços do Concelho, o Presidente da Câmara de Beja, Carreira Marques, concede-lhe a Medalha de Mérito Municipal de Beja - Grau de Ouro. A Câmara de Moura, terra onde nasceu, homenageou-o, também, atribuindo o seu nome a uma rua da cidade.

Em 2000 recebe o prémio Excelência de Uma Vida e Obra, promovido pela Fundação Glaxo Welcome das Ciên-cias de Saúde – hoje Fundação GlaxoSmithKline – que promove em 2002 a edição de uma magnífica biografia de Corino Andrade, da autoria da jornalista Maria Augusta Silva.

É dos elementos fornecidos por esta obra que nos servimos, em grande parte, para a redacção desta notícia dedicada a este alentejano ilustre, que frequentou o Liceu de Beja.

 

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