Memória da Escola

Diogo de Gouveia

 

Esta Memória da Escola reproduz o folheto de Dezembro de 2002, 

editado no âmbito das comemorações dos 150 anos do Liceu de Beja

(1852-2002)

 

 

Pesquisa e texto de Francisco Rosa Dias

Diogo de Gouveia: o patrono da Escola (ver genealogia)

Diogo de Gouveia nasceu em Beja, no século XV, e passou grande parte da sua vida em França. Professor, teólogo, diplomata, humanista, foi figura grada na cultura do seu tempo. Em 1937, o seu nome foi escolhido para patrono do Liceu de Beja.

 

Diogo de Gouveia era filho de Antão de Gouveia (ver genealogia), Cavaleiro da Ordem de Cristo que se fixou em Beja, onde casou, e exerceu o cargo de escrivão do Hospital Grande de Nossa Senhora da Piedade – tradicionalmente conhecido por Hospital Velho ou Hospital da Misericórdia, junto ao Castelo.

Dos vários irmãos de Diogo de Gouveia, salientamos Manuel de Gouveia, que foi prior da igreja de S. Nicolau, em Lisboa; Gonçalo de Gouveia, que foi desembargador da Casa da Suplicação e pai de Diogo de Gouveia , o Moço, assim designado para se distinguir do tio (o facto de terem o mesmo nome, de terem vivido em França e de serem ambos figuras notáveis do seu tempo tem originado confusões entre os estudiosos); Inês de Gouveia que viria a ser a mãe de Marcial, António e André, todos eles figuras conhecidas e com influência no campo do ensino no século XVI.

Diogo de Gouveia, denominado O Velho, para bem o distinguir do seu sobrinho com o mesmo nome, nasceu em Beja, em data incerta, cerca de 1471.

Estudou na Universidade de Paris, na Sorbonne, onde foi Mestre de Artes, Reitor e Bibliotecário.

Ordenado sacerdote em 1507, foi Doutor pela Faculdade de Teologia em 29 de Abril de 1510. Seria também Director da referida Faculdade.

Para além do seu percurso académico, que foi notável, Diogo de Gouveia desempenhou várias missões ao serviço de Portugal. Entre 1512 e 1537 desempenhou missões diplomáticas em França ao serviço dos reis D. Manuel I e D. João III. Conselheiro de D. João III, sugeriu a introdução do sistema de Capitanias no Brasil.

Foi, também, embaixador de D. João III junto do Concílio de Trento.

Bem conhecida , pela sua importância, é a passagem de Diogo de Gouveia pelo Colégio de Santa Bárbara, em Paris. A partir de 1520 arrendou o referido Colégio, de que se tornou Principal (dirigente máximo) e o transformou num verdadeiro colégio português da Universidade de Paris.

Aí afluíam os estudantes portugueses e estudantes de outras nacionalidades.

No Colégio de Santa Bárbara e na Universidade de Paris, foi Diogo de Gouveia professor de figuras bem conhecidas, como Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, e S. Francisco Xavier, o Apóstolo das Índias.

Aliás, a vinda dos Jesuítas para Portugal, deve-se a Diogo de Gouveia, que indicara a D. João III a existência de um novo grupo de clérigos que considerava aptos "para converter toda a Índia".

Da sua viagem a Portugal, em 1526, viria a resultar o intensificar do mecenato cultural de D. João III que criou 50 bolsas para a frequência de Santa Bárbara, que se tomou na grande escola de formação dos nossos humanistas e teólogos.

Estes bolseiros do Rei viriam, posteriormente, a desempenhar papel importante na renovação das Humanidades em Portugal.

 

 

A família dos Gouveias - dinastia de humanistas e pedagogos - (ver genealogia) viria a dirigir o Colégio de Santa Bárbara por um período de trinta e sete anos. Nele exerceram o cargo de Principal os humanistas Diogo de Gouveia, o Velho, e seus sobrinhos André e Diogo de Gouveia, o Moço.

Diogo de Gouveia foi católico intransigente, defensor da ortodoxia e da escolástica, num mundo abalado pelas correntes da Reforma , e crítico de todos os movimentos reformistas. Antierasmita, foi autor de um Tractatus Theologico Dogmaticus Contra Lutherum.

Regressado a Portugal, em 1556, foi promovido a Cónego da Sé de Lisboa. Nesta cidade faleceu em 1557 e foi sepultado no cruzeiro da Sé.

No sua pedra tumular, hoje perdida, mas descrita por autores do século XVII, podia ler-se:

 

 

Aqui jaz Diogo de Gouuvea

Doctor em Theologia, & rei-

tor da Vniuerfidade de Pa-

ris, Conigo nefta fancta Se

que alcançou, & feruio a cin-

co Reis de Portugal; & quatro de

França.Trattou, &

negociou por bem da Fé, &

honra defte Reino. Falleceuo a 8 dias de Dezembro de

1557, annos.’’

Está hoje perdida essa lápide.

Perdeu-se a lápide, mas não a fama de Diogo de Gouveia cuja vida se estendeu ao longo de cinco reinados ( Afonso V, João II, Manuel I, João III e D. Sebastião).

Em 1937, ano em que o Liceu passou a funcionar nas actuais instalações, o Ministério da Educação resolveu atribuir o nome do humanista português ao novo Liceu, substituindo o nome de Fialho de Almeida, que fora o patrono desde 1915.

A imprensa de Beja registou na altura vozes discordantes. No Diário do Alentejo de 27 de Julho de 1937, escrevia-se a propósito da substituição do nome do Liceu:

 

(...) Não queremos dizer que o nome de Diogo de Gouveia não tivesse pertencido, também, a um grande e ilustre português que honrou e engrandeceu a sua terra, mas queremos somente acentuar que o nosso povo Alentejano desconhece Diogo de Gouveia; ao passo que não há (...) um só alentejano medianamente culto que não saiba quem foi Fialho de Almeida".

 

0 autor do artigo propõe mesmo que todos os Municípios da Província se deviam interessar pelo caso, enviando abaixo-assinados ao gabinete do Ministro.

Mas venceu a vontade oficial.

No Diário do Alentejo, de 5 de Agosto de 1937, transcre-ve-se o Decreto nº 27. 920, que fora publicado dois dias antes: " (...) para dar cumprimento ao disposto no Artigo 14º do referido decreto-lei ( Decreto -Lei n.º 27.084 de 14 de Outubro de 1936) que obriga a designar os Liceus pela denominação educativa de um grande vulto da história pátria: ouvida a Junta Nacional da Educação, foi escolhido para patrono o grande humanista Diogo de Gouveia, notável figura do Renascimento e, para mais, natural da cidade de Beja.

 

Nestes termos o Governo decreta o seguinte:

 

Art. 1º - É classificado como nacional o Liceu da cidade de Beja.

Art. 2º - O Liceu Nacional de Beja passa a denominar-se Diogo de Gouveia".

 

Após o 25 de Abril, os Liceus passam a ter a designação de Escolas Secundárias. 0 Liceu passa então a Escola Secundária n.º 1 de Beja.

Em 1987, foi oficialmente decidido atribuir novamente um patrono às escolas.

Surge a proposta de manter o nome de Diogo de Gouveia, já inscrito na fachada principal, e que se mantém ainda hoje.

Ainda desta vez, houve vozes discordantes.

 

No n.º 30 do "Tentativa", jornal da Escola, de Janeiro de 1987, o Prof. Martinho Marques, no artigo "(...) Diogo o Outro e Não Este Com Qualquer Coisa de Intermédio", ironiza:

 

(...) ... a proposta de que o nome de Diogo de Gouveia continue a ser o nome de uma escola, que o teve desde a construção do edifício onde actualmente funciona, foi feita e não surpreende nem deve desagradar a alguns, para quem a conservação da toponímia é uma forma de defesa do nosso património cultural. Isso é o menos. Assim como assim, talvez seja pedagógico o passado que já passou (...)

 

Oficialmente, e pela Portaria n.º 261/87 de 2 de Abril, Diário da República, I Série, n.º 77, a Escola Secundária de Beja, passa a Escola Secundária de Diogo de Gouveia.

O nome de Diogo de Gouveia, o Velho, chega deste modo ao século XXI associado a uma escola já centenária - existe desde 1852 - mas apostada na modernização e no acompanhamento dos tempos actuais.

A comprová-lo, está a inclusão da escola entre as 100 melhores do país , no ano de 2001/2002. No corrente ano lectivo, 2002/2003, no chamado "ranking" das escolas, a Diogo de Gouveia situou-se em 30º lugar a nível nacional, num universo de mais de 600 escolas, públicas e privadas, sendo mesmo a melhor posicionada a sul do Tejo.

 

 

 

 

 

 

Outras memórias da Escola:

 

 

 

 

Manuel Ribeiro

Brito Camacho

Corino Andrade

Mário Beirão

Uma visita de estudo em 1934

O "livro de lembranças" de um aluno (1864-71)

 

 

 

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