Memória da Escola

Mário Beirão

 

Esta Memória da Escola reproduz o folheto de Janeiro de 2003, 

editado no âmbito das comemorações dos 150 anos do Liceu de Beja

(1852-2002)

 

Pesquisa e texto de Francisco Rosa Dias

Mário Beirão: um poeta de Beja

Mário Beirão nasceu em Beja e foi um cantor da cidade e do Alentejo. Frequentou o Liceu, então denominado de Fialho de Almeida, a funcionar, ao tempo, na Praça da República.

Mário Gomes Pires Beirão (1890-1965) nasceu na cidade de Beja, a 1 de Maio de 1890 e não em 1892 como se regista na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e em outras publicações que nela se inspiraram.

Deve-se a José Luís Soares ( Diário do Alentejo, 1993, 19 de Fevº. ) a investigação que permitiu esclarecer a data correcta.

Nasceu, pois, Mário Beirão na capital do Baixo Alentejo, na rua das Portas de Aljustrel, no actual nº 29, casa assinalada por uma placa comemorativa do nascimento do poeta, e foi baptizado, já em 1891, na igreja de S. João Baptista, hoje desaparecida.

Foram seus pais Francisco Gomes Beirão, de Vila Nova de S. Bento, comerciante com estabelecimento na rua dos Mercadores, e Maria José do Carmo Pires Beirão, natural de Ourique. Foi o quarto filho deste casal.

Em Beja passou Mário Beirão a sua mocidade, frequentando o Liceu, então instalado, na Praça – actual Praça da República – onde concluiu a 5ª classe em 1910.

Dos tempos de Liceu de Mário Beirão deixou-nos Julião Quintinha o seguinte testemunho:

"Recordo agora, com saudade e encanto, certo momento em que Mário Beirão, ao entardecer de um dia de Agosto, passeando vagarosamente pela cidade de Beja – rua das Ferrarias, Largo de Santiago, arrabalde da Graça – me ia dizendo, baixinho, os seus primeiros versos, já tocados da graça morena das musas alentejanas, melancólicos e tristonhos como o anoitecer na planície, imbuídos dessa toada nostálgica, evocativa das coisas passadas, extintas e sempre amadas.

É deste tempo um maravilhoso soneto que o poeta me leu antes de ser publicado em qualquer livro seu. Tinha este título estranho, "As Corujas", e era inspirado na superstição do povo, modelar e repassado de paixão.

Bons tempos! Mário Beirão teria, então, quinze anos, mais ou menos, e cursava o Liceu.. Eu, poucos mais teria, e cursava ...a oficina" ( Diário do Alentejo, nº 2434, de 26.IV. 1940).

Em Lisboa – a família do poeta deslocou-se do Alentejo para a capital - Mário Beirão frequenta a Faculdade de Direito onde se licencia, vindo, depois, a exercer o cargo de Conservador do Registo Civil em Mafra.

Residindo fora de Beja, visitava-a, contudo, com alguma frequência e não esqueceu a sua Escola. Prova disso é a oferta à Biblioteca do Liceu, em 1938, de um seu livro de poemas, "A Noite Humana", com dedicatória e assinatura.

Esteve também presente na I Festa de Confraternização dos Alunos do Liceu de Beja, em 1950.

Essa jornada académica de reencontro com colegas e lugares da mocidade inspirou-lhe mesmo o poema que transcrevemos:

Regresso

( Na reunião dos estudantes do Liceu de Beja)

Eis-me, de novo, em flor, — Menino e Moço!

Um perfume de cálida magia
Cresce dos estevais e me inebria,
Deixa-me em febre, cismas, alvoroço!

 

E este canto de Amor, que, a espaços, ouço,

Abre em oiros, sorrisos dalgum dia

E nasce água lustral, que me sacia,

No poço que secara, — estranho poço...

 

Eis-me, de novo, em flor! É Primavera
Em tudo, porque tudo, intimamente,
Me pressentia, estava à minha espera!

 

— Ó longes das planícies extasiadas,

Que eu seja, instante a instante, em vós presente,

Arda no sonho eterno das Queimadas!

 

 

Mário Beirão frequentou o Liceu da Praça

 

 

Vivendo embora fora do Alentejo, a presença da terra natal marcou profundamente a sua obra.

No dizer de David Mourão-Ferreira, Mário Beirão foi o cantor dos campos de Beja, das pedras da cidade e das ascéticas planuras do seu termo e da bravia austeridade da sua gente.

A sua obra literária, iniciando-se no Saudosismo e terminando numa corrente acentuadamente nacionalista e conservadora, como afirma Oscar Lopes ( História da Literatura. Portuguesa, 3º. Ed. , Porto Editora), não deixava, porém, de apresentar, em geral, algumas importantes características da poesia portuguesa posterior: um propósito de concisa epopeia, que será, depois, o do Fernando Pessoa da Mensagem; uma obsessão telúrica que virá a exprimir-se na obra de Torga; um sentido de reivindicação social que terá involuntários continuadores entre os neo-realistas da geração de 1940 (Dicionário de Literatura, Figueirinhas, Porto, 1992).

Estreou-se como poeta com O Último Lusíada, publicado em 1913, a que se seguiram Ausente (1915); Pastorais (1923 ); A Noite Humana (1928); Novas Estrelas (1940); Mar de Cristo (1957) e O Pão da Ceia (1964).

 

Escreveu ainda um volume de viagens em prosa e verso, Oiro e Cinza (1964).

 

Em 1996, a Imprensa Nacional - Casa da Moeda, em edição organizada por António Cândido Franco e Luís Amaro e prefaciada por José Carlos Seabra Pereira, publica o conjunto da obra do poeta, sob o título "Mário Beirão - Poesias Completas".

 

Mário Beirão faleceu em Lisboa, em Fevereiro de 1965.

 

O nome deste antigo aluno do Liceu de Beja figura, há muitos anos, como patrono de um estabelecimento de ensino da cidade – A Escola Preparatória de Mário Beirão.

 

 

 


 

 

Castelo de Beja

 

 

Castelo de Beja,
No plaino sem fim;

Já morto que eu seja,
Lembra-te de mim!

 

Castelo de Beja,
De nuvens toucado;

A luz que te beija
É sol do Passado!

 

Castelo de Beja,
Espiando o inimigo;

Te veja ou não veja,
Sempre estou contigo!

 

Castelo de Beja,
Feito de epopeias;

Um sonho flameja,
Nas tuas ameias!

 

Castelo de Beja,
Subindo, lá vais...
Tu fazes inveja
Às águias reais!

 

Castelo de Beja,
Lembra-te de mim:

Saudade que adeja,

No plaino sem fim...

 

 

 

 

 

Ausência

 

 

Nas horas do poente,

Os bronzes sonolentos,

- pastores das ascéticas planuras –

Lançam este pregão ao soluçar dos ventos,

À nuvem erradia,

Às penhas duras:

- Que é dele, o eterno Ausente,

- Cantor da nossa melancolia?

 

Nas tardes duma luz de íntimo fogo,

Rescendentes de tudo o que passou,

Eu próprio me interrogo:

- Onde estou? Onde estou?

E procuro nas sombras enganosas

Os fumos do meu sonho derradeiro!

 

- Ventos, que novas me trazeis das rosas,

Que acendiam clarões no meu jardim?

 

- Pastores, que é do vosso companheiro?

 

- Saudades minhas, que sabeis de mim?

 

 

"Poema do Saudosismo depurado que Jorge de Sena considera um dos mais perfeitos da Língua Portuguesa."

 

 

 

 

Outras memórias da Escola:

 

 

 

Manuel Ribeiro

Brito Camacho

Corino Andrade

Diogo de Gouveia

Uma visita de estudo em 1934

O "livro de lembranças" de um aluno (1864-71)

 

 

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