Memória da Escola

Uma visita de estudo em 1934

 

Esta Memória da Escola reproduz o folheto de Fevereiro de 2003, 

editado no âmbito das comemorações dos 150 anos do Liceu de Beja

(1852-2002)

 

Pesquisa e texto de Francisco Rosa Dias

UMA VISITA DE ESTUDO EM 1934

Há 69 anos, as turma das 4ª e 5ª Classes do Liceu Fialho de Almeida, de Beja, que funcionava na Praça da República, deslocaram-se em visita de estudo ao Alto Alentejo e a Badajoz. Apresenta-se aqui o Relatório dessa viagem.

 

Ao folhearmos alguns Livros de Termos antigos, deparou-se-nos o Relatório de uma visita de estudo ao Alto Alentejo. Ali o deixara esquecido, muito provavelmente, o Professor que o recebera e nele fizera algumas correcções ortográficas.

 

As turmas em digressão eram as das 4ª e 5ª Classes, corria o ano de 1934, e a viagem decorrera de 1 a 4 de Abril, visitando Évora, Vila Viçosa, Elvas, Badajoz e Estremoz.

O Relatório da visita, que fora certamente solicitado pelos Professores acompanhantes, Drs. Almeida Vaz e Eduardo Ferraz, este último Reitor do Liceu, que ainda se denominava de Fialho de Almeida, e estava instalado na Praça da República – era o Liceu da Praça - estava batido à máquina , a vermelho – provavelmente já se gastara a parte negra da fita da máquina, mais utilizada - datado e assinado.

O jovem Alfredo Aníbal, em 1931, com 17 anos

Era seu autor Alfredo Augusto dos Santos Aníbal, de 20 anos, nascera em 16/02/1914, aluno nº 18 da 5ª Classe, morador no Largo 9 de Julho, em Beja (a sua foto, apresentada ao lado, é de 1931).

Ao ler o Relatório, pensámos, de imediato, na sua publicação no âmbito das Comemorações dos 150 anos do Liceu.

E publicá-lo porquê?

Porque se trata de um trabalho escolar, já com alguma antiguidade , que dá conta de actividades desenvolvidas pelo Liceu, que mostra algumas vivências dos alunos, que nos transporta para outro tempo.

E há alguns pontos curiosos. Desde logo, a linguagem utilizada. Tratando-se de um trabalho a apresentar aos Professores, a linguagem tende a ser cuidada e o tratamento dado aos Professores é respeitoso.

Há depois a descrição dos lugares e instituições visitados. Os comentários tecidos pelo relator traduzem, claramente, as informações dadas nos locais por Professores ou guias, embora destes não haja qualquer referência no Relatório. Mas nota-se, também, o entusiasmo do jovem visitante perante alguns monumentos que o impressionaram e as comparações com a cidade de Beja - em Elvas e em Estremoz.

Pormenor curioso é o tempo que a camioneta levou de Beja a Évora. Se o aluno não se enganou, e ele é meticuloso nos registos, saíram às oito horas e quinze minutos e chegaram às dez horas e dez minutos – quase duas horas certas.

Atendendo a que ainda pararam na Vidigueira para um Porto de Honra em casa do colega Campião e que em Monte do Trigo também pararam e visitaram os monumentos (?) da terra, com uma estrada que ainda serpenteava pelas serras do Mendro e Portel, grande máquina era aquela camioneta em 1934!

E há, claro, o encanto do convívio.

Os almoços são "lautos", as récitas "interessantíssimas", os bailes decorrem com "bastante alegria" até altas horas da madrugada. E, em Estremoz , então, "gentis damas" os cobriram de flores e ofereceram um Porto de Honra, ... o 3º da visita.

Ainda se cantou o Hino com acompanhamento de flauta e violino e certamente se viveram muitas situações que não são relatadas.

E, saudosos e mais conhecedores da história da arte, regressaram a Beja ao 4º dia.

Ignoramos onde vive, se vive ainda, o autor do Relatório que já ultrapassou os oitenta anos. Se for possível, muito gostaríamos de lhe fazer chegar este seu trabalho da juventude.

Na publicação do Relatório mantivemos a grafia e a pontuação originais.

 

"Relatório da excursão organisada pelos alunos da 4ª e 5ª classes do Liceu de Fialho de Almeida em Beja, 1 de Abril de 1934.

 

Acompanhados dos Ex.mos: Senhores Professores Drs. Eduardo Pereira Ferraz; e Alberto Vaz de Almei-da Neves, partiram para a excursão os referidos alunos; a qual teve o seguinte itenerário: Beja; Évora; Vila Viçosa; Elvas; Badajoz; Estremoz; Évora; Beja.

Eram 8 horas quando os dignissimos alunos excursionistas se aproximaram da camionete que os devia conduzir.

Dado o primeiro quarto apóz as oito deixamos esta nossa cidade. Feita a primeira paragem em Vidigueira, foi-nos oferecido um Porto de Honra em casa do nosso colega Campião [Trata-se de João Figueira Campião, natural da Vidigueira, nascido em 09/12/1916, aluno da 4ª Classe] onde foi mais uma vez demonstrado o espirito de camaradagem académica bejense.

Dados alguns vivas a este colega e á sua Exmª. Familia que tão gentilmente nos obsequiaram foi pelo nosso Exm.º professor senhor Dr. Almeida Neves tirada a primeira fotografia aos excursionistas.

Feita a segunda paragem em Monte Trigo fizemos uma leve visita aos monumentos desta localidade.

Chegando a Évora ás 10,10 vizitamos primeiramente a Sé desta nobre cidade; contemplados os seus encantos seguimos para o Templo de Diana no qual sua Ex.ª o Exmº. Snr. Dr. Almeida Neves nos fez uma pequena prelecção acerca deste Templo, pouco depois dirigimo-nos ao hotel onde nos foi servido um lauto almoço que decorreu com bastante alegria.

Acompanhados de alguns colegas de Évora fomos assistir a um interessante desafio de "Basket" entre os alunos deste liceu e uma selecção de Elvas.

Em seguida foi dado em nossa honra um baile no liceu que decorreu com bastante alegria.

Á noite foi-nos servido o jantar no hotel e apoz este cada qual procurou divertir-se durante essa noite passada em Évora. Eu e alguns colegas dirigimo-nos ao Quartel de Infantaria 16 onde assistimos a uma récita interessantissima seguida de um formidável baile.

No dia seguinte ás 9,30 partimos para Vila Viçosa passando por outras encantadoras vilas dignas de visita.

Chegando a Vila Viçosa ás 11,15 fizemos primeiramente a visita ao palácio dos Braganças o qual tem uma aparencia muito vulgar mas encerra a maior fortuna de Portugal.

Feita uma visita a todas as dependencias deste palácio tivemos ocasião de apreciar os melhores quadros feitos por os mais nobres pintores, como por exemplo Malhôa e Carlos dos Reis.

Um quarto digno de ser visto, foi onde D. Carlos passou a ultima noite da sua vida, lá está ainda a cama onde ele dormiu o ultimo sono.

Este encontra-se humildemente mobilado mostrando assim que o nosso rei era muito modesto.

 

Seguindo vários quartos chegamos finalmente á sala de jantar onde o nosso rei nos apresenta a sua opulencia tendo aqui um tapete valorizado na importancia de quinhentos mil escudos.

A sala é formidável, e, o seu mobiliário é verdadeiramente rico.

Vários trabalhos em marfim de origem japoneza.

Muitas armas adornam uma sala, uma biblioteca riquissima, uma sala de jogos ricamente mobilada e uma cozinha onde não falta nada, desde o tacho de cobre até ao espêto onde os reis mandavam assar bois inteiros.

Tomada a primeira refeição do dia partimos para a igreja de S. Francisquinho, onde apreciamos notáveis ladrilhos e várias imagens.

Aqui tambem se encontram os túmulos dos fidalgos das casas de Bragança.

Visitados mais alguns templos dignos de apreciação dos excursionistas partimos para Elvas.

Chegando a Elvas fomos visitar os fossos d´um notável interesse militar.

Aqui foi completamente derrotado um exército castelhano.

Foi aqui que a batalha das Linhas de Elvas foram derrotados os espanhoes por D. Antonio Luiz Menezes.

Esta cidade é uma das mais notáveis do nosso paíz pelos seus feitos militares e por alguns templos verdadeiramente interessantes.

A estética desta cidade é deveras interessante.

Vistas das muralhas esta cidade da-nos uma vaga ideia da nossa capital.

Aqui alguns colegas desejariam ficar por alguns dias, pois que esta hospitaleira cidade é verdadeiramente encantadora.

No dia seguinte partimos para Badajoz.

Passada a grande ponte entramos nesta bela cidade onde reina a alegria d´um dia de festa.

Visitada a Sé desta cidade espanhola tivemos ocasião de apreciar o interior de um templo espanhol.

Visitados mais alguns templos chegamos finalmente ás muralhas onde D. Afonso Henriques foi gravemente ferido.

Apreciado o movimento e a vida desta cidade regressamos para Elvas entoando o nosso belo Hino acompanhado á flauta e ao violino.

Chegando a Elvas tomamos o almoço e seguimos para Extremoz onde nos esperava um baile acompanhado de um Porto de Honra.

Nesta interessante cidade alentejana fomos muito bem recebidos na sede do Orfeon.

Apoz uma ligeira vizita á cidade seguimos para o hotel onde nos serviram o jantar.

Tomado este seguimos para a sede do Orfeon onde as gentis damas nos cobriram de flores e nos serviram mui gentilmente um Porto de Honra.

Servido este seguiu-se um baile que muito alegremente se prolongou até altas horas da madrugada.

Ás 8 horas da manhã vizitamos o castelo que nos dá uma ideia do nosso, uma egreja do tempo de D. Diniz, a Escola Industrial onde tivemos ocasião de apreciar vários trabalhos entre eles a construção de objectos de barro, tapetes, trabalhos em pedra verdadeiramente encantadores e cheios de arte.

Aqui foi-nos oferecida uma recordação pelas alunas desta Escola.

Vizitado o hospital que possui uma fortuna muito grande nós gostamos muito de ver o templo que dentro dele se encontra.

Partimos depois do almoço com destino a Evora visitando aí o jardim publico com as ruinas de um palácio, o convento de S. Francisco obra verdadeiramente rica e a egreja da Graça; esta egreja é a melhor do mundo. A sua arquitetura é verdadeiramente assombrosa.

A Casa dos Ossos encontra-se no convento de S. Francisco.

Esta casa nada tem de admirável mas a sua aparencia interior é verdadeiramente emocionante.

Á porta desta casa encontra-se uma lápide que nos deixa bastante comovidos: "NÓS OSSOS QUE AQUI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS".

Vizitados mais alguns templos desta cidade, regressamos á nossa onde nos esperavam os nossos colegas as nossas familias e os nossos jantares.

E foi assim que terminou uma excursão que nos deixa bastantes recordações e que nos serviu de lição prática sôbre as encantadoras cidades que vizitamos.

Foi deveras aproveitável a lição de história d´arte que os nossos professores nos deram.

 

 

Alfredo Augusto dos Santos Aníbal

 

Aluno nº 18 da 5ª Classe do Liceu de Beja"

 

 

 

 

 

OBS. No final da leitura deste Relatório, bem nos apetece dizer, a exemplo de Brito Camacho, outro aluno do Liceu, quando , já velho, recordava os seus anos de estudante: "Que bom tempo!"

 

 

 

 

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